Entrevistas
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Ano V - Nº 51 - Out/2001
Lutar
contra o terrorismo é combater suas causas
Para o Professor Dr. Fredys Orlando Sorto a intervenção
da ONU é essencial no sucesso da condução dos
conflitos no Oriente Médio
Doutor em Ciência Política pela USP, coordenador e
professor do mestrado em Direito Econômico da UFPB,
professor do curso de Direito da UFPB, autor de diversas
obras jurídicas, Fredys Orlando Sorto lançou
recetemente o seu mais novo livro "Guerra Civil
Contemporânea: a ONU e o caso El Salvadorenho".
Resultado de uma pesquisa feita com fontes primárias,
tais como cartas pessoais, comunicados políticos
militares, discursos oficiais, o livro é uma tentativa
de provar que existem formas inteligentes de compor os
conflitos internos e que a guerra em El Salvador foi uma
estupidez. O livro demonstra, também, como a esquerda
latino-americana tem dificuldade de chegar ao poder e que
na maioria dos conflitos civis as causas não são
atacadas, e por tal, o problema continua latente.
Em entrevista a Dataveni@, realizada em 09 de outubro de
2001, o Dr. Fredys Orlando Sorto fala sobre terrorismo,
guerra civil e defende a intervenção da ONU na
condução dos conflitos no Oriente Médio.
Dataveni@ - Qual a possibilidade dos EUA
neutralizarem os extremistas suicidas sem ferir os
princípios democráticos e a liberdade individual,
estofo sobre o qual se assenta a prosperidade americana?
Fredys Orlando Sorto - A situação do
jeito que está, da forma como está sendo conduzida, nos
leva a pensar que não só a democracia, mas também toda
a ordem internacional vai ser mudada substancialmente.
Porque atitudes de força e de violência conduzem a
violência, isso é sabido. A quebra do equilíbrio das
relações entre os Estados, tão frágil no Oriente
Médio, terá repercussões para todos, inclusive nós.
Dataveni@ - O sr. não acha que sob o pretexto de
combater o terrorismo, os EUA podem promover uma escalada
de represália que frature a lógica de convivência
pacífica e desencadeie novos atos terroristas?
Fredys Orlando Sorto - Com certeza. O
grande temor é que na medida em aumenta a tensão no
Oriente Médio, na medida em que se promove a violência
com fundamento no direito de legítima defesa isso
poderá ocasionar novos atos terroristas. Na verdade,
este problema poderia ter sido conduzido por um organismo
multilateral, aqui estou pensando na ONU; isso leva a
duas questões para nós também. A primeira é a
unificação dos diversos grupos fundamentalistas
islâmicos, o fortalecimento deles e a quebra do
equilíbrio na região. Por outro lado, a democracia
norte-americana, paradigma para toda a sociedade
internacional, poderá sofrer fortes arranhões,
profundos arranhões na medida em que eles vão precisar
controlar as pessoas, vão portanto limitar a liberdade,
vão limitar os direitos fundamentais. Isso na minha
opinião vai ser ruim para a democracia.
Dataveni@ - Podemos considerar os ataques
americanos como exemplo de modelo terrorista?
Fredys Orlando Sorto - Para nós ainda é
difícil dizer se é terrorismo. Não sabemos o que foi
que aconteceu, não temos uma visão clara dos estragos
que causaram lá, não sabemos se há mortes de civis. O
problema é que há uma demanda interna no povo norte
americano pedindo para que o governo do seu país tome
medidas de força e o governo Bush, que é um governo
republicano, e governo republicano se caracteriza na
ordem internacional exatamente por ser intervencionista,
está pretendendo dar essa resposta. Agora eu acho que é
problemático responder com o mesmo veneno. Se for
realmente provada que essa atitude de força não teve
apenas por objetivo capturar, julgar e punir o Bin Laden,
se for o caso, mas sim, provocar violência, morte e
dessa forma compensar a sociedade americana com milhares
e milhares de civis mortos é uma forma macabra de
recompensar. Portanto, eu discordo dessa condução da
crise externa.
Dataveni@ - Qual a melhor forma para combater o
terrorismo?
Fredys Orlando Sorto A melhor forma para combater
o terrorismo é atacar as causas. Na minha opinião, no
problema do Oriente Médio, a primeira questão seria
resolver o problema palestino porque isso tiraria um
trunfo dos fundamentalistas, tiraria um pilar. Resolvido
o problema palestino, acho que a situação, a condução
do processo deveria ser feita pela ONU. Se o Estados
Unidos têm direito de veto, se a China também tem, se a
Rússia que sempre foi contrária também tem e se todos
os estados estão colaborando com os Estados Unidos, por
que os Estados Unidos não usam a ONU? Se toma atitudes
unilaterais, os norte-americanos e britânicos estão
tomando medidas de vingança eu diria. Por que não
deixar a ONU liderar esse processo de combate ao
terrorismo? Isso seria um modo inteligente. Porque isso
envolveria toda a sociedade internacional, visto que a
sociedade internacional se manifestaria na assembléia
geral com direito de voto assegurado a todos. Por outro
lado, um problema bem profundo mas que deve ser resolvido
é a questão do desenvolvimento. Isso implica em mudar
as diretrizes dos organismos internacionais que canalizam
recursos, penso aqui no FMI, no Banco Mundial, mas
também na própria OMC. Esses organismos devem permitir
a transferência de recursos para o terceiro mundo. Deve
haver a criação de mecanismos que permitam a
transferência de tecnologia para que o terceiro mundo
possa desenvolver-se, possa democratizar-se, possa haver
respeito aos direitos humanos e que haja,
conseqüentemente, fortalecimento da democracia. Aí com
essas três medidas se daria um golpe mortal nesses
fundamentalistas, quer sejam islâmicos, quer sejam de
outros lugares.
Dataveni@ - O Sr. acredita que a falta de
negociação, de diplomacia, a falta de uma ênfase maior
na política externa dos EUA por parte do governo Bush
dificultaram o processo de paz no oriente médio?
Fredys Orlando Sorto Não sei.
Porque depois do estabelecimento do Estado judaico e a
exclusão do Estado palestino, sempre houve uma tensão
permanente no Oriente Médio, exemplo disso foram as
três grandes guerras: de 56, 67 e 73. Agora, depois da
ultra-direita ter assumido o poder em Israel, as tensões
subiram. A tensão no Oriente Médio já era grande,
depois do fim da Guerra Fria houve uma transferência de
tensões para o interior dos Estados. Nós estamos aí
com Estados que pagam sua dívida externa e não vem
diminuindo o valor dessa dívida. Os Estados que têm
comprometido sua soberania em razão das regras impostas
pelos organismos financeiros internacionais estão em
situação muito difícil, é só olhar para os países
maiores da América Latina: Brasil e Argentina.
Complicada essa questão.
Dataveni@ - O Sr. acredita que esta guerra poderá
ter amplitudes mundiais?
Fredys Orlando Sorto - Não, acho que não.
Dataveni@ - O Sr. acha que essa guerra pode vir a
por limites no processo de globalização?
Fredys Orlando Sorto - Também não acho.
Acho que há interesses muito grandes no Oriente médio.
O Oriente Médio tem petróleo, há um problema
estratégico e existem interesses nesse sentido. E há um
interessado nessa história que é o setor bélico, a
indústria bélica norte-americana deve estar soltando
"foguetes".
Dataveni@ - Demétrio Magnoli, Doutor em Geografia
Humana, afirma que a definição do inimigo "acabar
com o terrorismo" inviabiliza a coalizão mundial e
condena o empreendimento ao fracasso. O Sr. concorda com
essa afirmação ?
Fredys Orlando Sorto Acho que sim.
Ele tem escrito excelentes textos na Folha de São Paulo
analisando com muita lucidez a questão do Oriente
Médio. Inclusive, o último texto que publica na Folha
revela como a mídia brasileira trata o leitor,
principalmente a Veja, que trata o leitor como retardado.
Eu acho que nesse sentido a Folha de São Paulo faz um
trabalho muito grande em demonstrar que há outros
caminhos. Os analistas têm escrito textos brilhantes de
todas as tendências na Folha, demonstrando que essa
guerra não resolverá o problema do terrorismo. Matar
Bin Laden não significa muito, até porque isso é a
face mais visível de um problema que é profundo. Se
eles o matarem eu acho que ele vai se tornar mártir,
herói e surgirão muito mais "Bin Laden" da
vida por aí. A questão é resolver as causas desse
problema.
Dataveni@ - A guerra civil contemporânea é uma
guerra contra o terrorismo?
Fredis Orlando Sorto - Não. A guerra civil
contemporânea é um fenômeno que se dá no interior dos
Estados devido às tensões que são transferidas por
esse modelo econômico excludente. Então, esse modelo
faz com que a guerra civil seja a guerra contemporânea
por excelência. Não mais a guerra entre Estados, mas, a
guerra no interior do Estado. Agora, o que há de mais
interessante na guerra civil contemporânea é a forma de
composição, a forma de solução desse tipo de
litígio. Nesse sentido, eu acho que o caso da mediação
de El Salvador com a participação da ONU e a
colaboração dos Estados Unidos e da Rússia constituiu
um paradigma muito importante. Porque pela primeira vez
um organismo do porte da ONU participa de um processo de
negociação com sucesso. Então, eu acredito que esse
modelo pode ser aplicado em outro lugar, como de fato eu
provo no meu livro. É um modelo que pode ser aplicado
com sucesso, desde que sejam observadas certas
condições ideais.
Dataveni@ - O sr. acredita que Bin Laden deveria
ser julgado, caso capturado, por um tribunal penal
internacional?
Fredis Orlando Sorto A questão é
de territorialidade. O crime foi cometido nos Estados
Unidos. Os norte-americanos não vão permitir que um
tribunal internacional constituinte faça isso. Eles vão
querer fazer isso.
- Equipe
de jornalismo datavenia.net
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