Entrevista - Ano V - Novembro de 2001




 

"Tecnologia de caráter social deve ser bem mais reconhecida"

 

Para o Dr. Michel Thiollent, a tecnologia agrícola deve ser bem mais explorada e difundida em países como o Brasil

 

Michel Thiollent é francês e está a 26 anos no Brasil, sociólogo, doutor em sociologia e economia. É autor de livros sobre metodologia da pesquisa-ação, por isso, considerado um "metodólogo". Suas áreas de estudos abrangem desenvolvimento local, extensão universitária, sistemas agroindustriais, inovação tecnológica e organizacional. Professor da COOPE (Instituo Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dr. Thiollent fala sobre pesquisa científica, patentes e desenvolvimento tecnológico.

Dataveni@- O que provoca o descompasso entre produção acadêmica e o desenvolvimento tecnológico?

Michel Thiolent- Depende do que estamos falando. Se estamos falando de alta tecnologia: telecomunicações, engenharia espacial etc., ou se estamos falando de tecnologia no sentido mais difundido, mais social: tecnologia agrícola, de pequeno porte. O problema no caso da alta tecnologia é que, com essa abertura da globalização, as empresas não estão mais interessadas no desenvolvimento tecnológico nacional. Como todas essas políticas nacionais de pesquisas foram abandonadas, as multinacionais provocaram a entrada de novas tecnologias que não são pensadas aqui, de acordo com a realidade daqui. Começam, também, a importar engenheiros para implementar essas tecnologias, havendo um descompasso da academia que não acompanha e não recebe uma demanda por parte desse pólo de desenvolvimento tecnológico. Existem algumas exceções, como algumas entidades e universidades com uma contribuição significativa de desenvolvimento tecnológico. Mas, de um modo geral, essas entidades e universidades são cada vez menos solicitadas em prestação de serviço, pois a tecnologia já vem pronta. Falando do desenvolvimento tecnológico de caráter social, o descompasso é por motivos totalmente diferente. A questão é a pouca divulgação dessas tecnologias que, do ponto de vista acadêmico, não dá tanto "status" pesquisar com tecnologia apropriada. Dentro de muitas universidades existe um potencial de conhecimento para essas tecnologias que ainda é pouco utilizado. Existe esse descompasso por motivos totalmente diferentes da alta tecnologia.

Dataveni@- Apesar de sua importância, a patente é o melhor mecanismo institucional para o estímulo ao investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D)?

Michel Thiolent- Para todos os países, inclusive o Brasil, os centros de pesquisa tem que se preocupar com a patente, mais do que isso, com a propriedade intelectual. Muitas vezes, os produtos vegetais que só existem aqui estão sendo objetos de patentes lá fora. O brasileiro tem que pagar para usar o que produz aqui. O ponto chave de muitos anos de pesquisa é a falta de preocupação com patentes e com direitos de propriedade intelectual. Agora ter patente é o tipo de coisa que faz sentido no mercado tecnológico. Muitos problemas sociais e técnicos no Brasil, em áreas de grupos privilegiados, exigem conhecimentos que, na verdade, não são objetos de transação em termos de mercado, dessa forma, a patente não faz tanto sentido, o que faz sentido é o direito autoral. A patente é fundamental dentro da visão de mercado. Mas, dentro da atuação de uma universidade, que não é exatamente o mercado, a patente não é um indicador a ser observado. Existem outras maneiras de produzir e proteger o conhecimento produzido.

Dataveni@- O presidente da FAPESP Carlos Henrique Brito Cruz afirmou que a ciência acadêmica, o conhecimento acadêmico deve ser gerado dentro das empresas e não na universidade. Como Sr analisa esta afirmação?

Michel Thiolent- É um modelo ocidental de tecnologia. Sempre com os EUA à frente delimitando um marco em relação a isso. Esse modelo de desenvolvimento tecnológico está atrelado ao modelo de desenvolvimento capitalista que, na verdade, não dá pra ser seguido por todos os países. O Brasil sempre quer ser os Estados Unidos e, para isso, tem que copiar o mesmo modelo de ciência, de tecnologia, de universidade. Copiando tudo isso, fazendo tudo direitinho, chegaria lá. Isso é uma ilusão! Porque esse país conseguiu um domínio sobre o mundo que não dá pra ser copiado, tem muita gente que está fora da competição. Podemos incentivar, desejar que as empresas invistam mais em tecnologia, interagir mais com as universidades. Querer que o Brasil seja como os Estados Unidos em que 90% da pesquisa é financiada pelas empresas é ilusão. Alguns países já abandonam essa idéia de querer considerar o modelo ocidental como padrão a ser atingido.

Dataveni@- A que se deve a colocação do Brasil em quadragésimo terceiro lugar no ranking de desenvolvimento tecnológico da ONU?

Michel Thiolent- De fato, esse indicador pretende medir o uso social da tecnologia. Porém, o problema existente tem uma razão que é a própria natureza do indicador. Por exemplo, uma das variáveis desse indicador é saber quantas pessoas estão interligadas à internet, tem computador em casa e coisas desse tipo; no Brasil existe muita gente com computador e internet, mas, dentro de uma população de 160 milhões evidentemente cria um dado que sempre vai ficar atrás da Finlândia e de outros países pequenos já que a população, em sua maioria, tem o terceiro grau completo. Há um motivo que é um problema sério de mau aproveitamento tecnologia no Brasil, não tenha dúvida, mas, há uma razão da própria da natureza do indicador que é um estilo bastante criticável. Fazer um ranking com países bastante diferentes e populosos como: Índia, Nigéria, Brasil é evidente que sempre ficarão atrás por definição; enquanto que a Finlândia, a Dinamarca ficarão à frente por uma razão aritmética.

Dataveni@- Como o Sr. analisa a política governamental de incentivo a pesquisa e desenvolvimento?

Michel Thiolent- É uma pergunta muito ampla. Dentro da universidade estamos vendo apenas uma parte, a que nos afeta mais diretamente. Essa questão da redução de bolsa para pós-graduação, do financiamento do projeto, de professores, isso tudo me parece mais complicado. Há um corte muito grande e dizer que isso vai ser compensado com fundos privados também é uma ilusão. Essa política atualmente não está fomentando o desenvolvimento científico e tecnológico significativamente, mas, existem algumas iniciativas, mesmo contrárias a certas linhas novas, que foram criadas por órgãos do governo. Lógico que nessas iniciativas existem interesses divergentes, difícil considerar isso como um bloco. Existem algumas iniciativas que não se enquadram na política da grande tecnologia de corte, mas, que merecem ser mais bem reconhecidas, há alguns laboratórios que nos apóiam com tecnologia apropriada, há financiamento de projeto para agricultura familiar. Porém, globalmente, a impressão que se tem é que o há encolhimento do apoio ao desenvolvimento científico-tecnológico.

 

 

Vilbégina Monteiro

Acadêmica do curso de Comunicação Social

Colaboradora da Revista Dataveni@

 

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