- Ano X - novembro - 2006 - Nº 94



Nietzsche e a Filosofia do Direito

Fabio Brych (*)

Resumo: Presente texto traz a lume a proposta de Nietzsche que consiste na “transmutação de todos os valores”, vistos de sua obra escrita em 1888 com o nome de Anticristo. Traz-se como proposta combater o dualismo platônico seguido pelo cristianismo concebido pelo apóstolo Paulo. Sua reflexão consiste em uma ácida crítica aos valores postos pela doutrina cristã. A temática necessariamente se estende ao campo do Direito, uma vez que esses valores se tornam a pedra fundamental da legislação de um povo.

Palavras-Chave: Filosofia do Direito. Valores. Existencialismo.

Summary: Present text brings to fire Nietzsche's proposal that consists of the “transmutation of all the values”, seen of his/her work written in 1888 with Antichrist name. It is brought as proposal combats the following platonic dualism for the Christianity become pregnant by the apostle Paulo. His reflection consists of an acid critic to the values put by the Christian doctrine. The theme necessarily extends to the field of the Right, once those values become the fundamental stone of the legislation of a people.

Word-key: Philosophy of the Right. Values. Existentialism.

Introdução

A maioria dos problemas da filosofia (e por coincidência/conseqüência do Direito) são problemas de valor. A verdade questionada por Nietzsche são as verdades da existência, da metafísica e das ciências, numa visão concatenada. A natureza dessa verdade permanece obscura na natureza da vida, não tendo o filósofo sucesso absoluto em sua empreitada. O objeto é a natureza da vontade do domínio e do eterno retorno.

Nietzsche trás de modo provocativo a proposta de suprimir diferenças, a padronização de valores que é mascarada sob o pretexto de universalidade, são interesses particulares em um regime totalitário. Munido de sua inflexível honestidade intelectual, teve sua cólera dirigida a transformação do ser humano em uma peça (coisificação da personalidade) que deve atender a estrutura global, o enrijecimento da mente pelos preceitos postos pelos grandes formadores de opinião. Sua maneira de pensar, abordar os temas e questões mostra como se faz necessário seu pensamento para entender nosso tempo. Estamos diante da tarefa do homem em reapropriar sua essência, traçar as metas do seu destino.

Estamos diante da filosofia de um pensador que talvez constituiu uma grande revolução em toda a doutrina existencialista até então. Podemos considerar sua tese tal qual a de Copérnico ao afirmar que a terra girava em torno do sol contrariando a “verdade” posta – a nível de repercussão.

No prólogo do anticristo o filósofo niilista traz um aviso: “Este livro destina-se aos homens mais raros. Talvez nem possa encontrar um único sequer que ainda esteja vivo”. Sua ambição ao redigir tal obra se destinava a compreensão de uma cultura futura. A previsão que fazia era categórica: “Há homens que nascem póstumos”. A pretensão ao conceber o pequeno intróito discriminando quem seria o destinatário de seus esforços: “Para suportar a minha seriedade e a minha paixão é preciso ser íntegro nas coisas de espírito até as últimas conseqüências. (...) É necessário ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...”.

Iniciaremos antes de qualquer coisa abordando os precedentes da filosofia que o filósofo alemão tinha ao perceber que as coisas foram, são e sempre serão as mesmas, tudo o que está no mundo é algo pronto, acabado. Este tema foi objeto da especulação filosófica na Grécia pouco antes de Sócrates, a busca pela essência do Ser.

Entre a bibliografia concebida por Nietzsche iremos preliminarmente examinar “O Anticristo” e também parcialmente a “Genealogia da moral”, livros onde é examinado como surgem os valores – em particular os valores morais. Valores estes que não existem desde sempre, são concebidos a partir de avaliações. É certo de avaliações diferentes geram valores diferentes. Mostra, além disso, que estas mesmas avaliações podem ser reconsideradas, onde aponta para uma “transmutação de todos os valores”.

O Eterno Retorno

    “Certa tarde, ao fazer seu passeio habitual, foi atravessado pela visão do eterno retorno. Tudo retorna sem cessar. Se o universo tivesse algum objetivo, já o teria atingido; se tivesse alguma finalidade, já a teria realizado: não existe um Deus, soberano absoluto, com desígnios insondáveis. Todos os dados são conhecidos; finitos são os elementos que constituem o universo, finito é o número de combinações entre eles; só o tempo é eterno. Tudo já existiu ou tudo tornará a existir.” (MARTON, Scarlett in NIETZSCHE, 2002 p.15).

A visão que o filósofo teve ao perceber que todas as coisas postas no mundo já existem e tornarão a existir, foi objeto de especulação pelos pensadores helênicos no período antigo – pré-socrático. Verifica-se neste período a transição paulatina do teocentrismo onde a explicação de tudo era conseqüência divina, para uma argumentação derivada do ser, da razão.

Traremos os ideais concebidos neste tempo então, de modo a trazer uma noção robusta da problemática acerca da existência. Parmênides de Eléia (515-450 a.C. aproximadamente) foi responsável pela emergência de uma nova problemática e uma maneira diferente de refletir e abordar a realidade na sua totalidade.

Historicamente, é exatamente neste período que houve os primeiros indícios que provocaram uma ruptura com o corpo do saber vigente, o pensamento cotidiano, tradicional e fundamentado na mitologia. As idéias, pesquisas e novas propostas para explicar o universo coincidiram com o aparecimento da filosofia, como uma nova forma de conhecimento, criadora de uma nova mentalidade em novos paradigmas.

Esta ruptura como o passado e evidencia-se como o papel predominante do lógos (razão), que foi inserido pelo que se pode verificar no pensamento de Tales de Mileto. O conceito sobre a origem de tudo – tal qual o pregado pelo cristianismo – está na natureza.

    “Para eles o termo Natureza (physis) era o mesmo que origem (gênese), fundamento, substrato, princípio originário, evolução, crescimento e estrutura de todas as coisas. Portanto, ao se preocupar com o problema da origem do universo, Tales não se limitou a uma parte desse universo, mas essencialmente com a totalidade do real” (SANTOS,2001 p.26).

Posteriormente Aristóteles emprega a proposição de Tales sobre o divino, além dos limites de sua visão naturalista. O conceito naturalista tem na realidade a primeira e última de todas as coisas, tudo se resolve e governa estando neste âmbito. Portanto, o conjunto composto pelas coisas e seres que constituem o universo – com exceção daquilo que é produzido pelo homem – era a essência, o núcleo permanente e próprio das coisas.

Mas retornando a investigação iniciada por Tales, seu sucessor Anaximandro também de Mileto continuou na procura da origem das coisas, buscando aprimorar aquilo que já foi conhecido. Suas conclusões chegaram a uma substância original (constituinte do mundo) – apeíron –que é indefinida e não é semelhante a qualquer espécie de matéria ou elemento dentro do mundo já estruturado. Sua grande contribuição é a descoberta do equilíbrio necessário entre os contrários que constituem o mundo, partindo de seu princípio basilar (o ápeiron). Verifica-se uma pequena ponta do dualismo: seco e úmido, quente e frio, e assim por diante. Há então uma harmonia na natureza. Esta estabilidade e equilíbrio estão na metáfora da legalidade construída a partir do mundo humano: O tempo que é o poderoso juiz ou tribunal, é quem decreta de acordo com o prazo e regula os períodos que deverão ser respeitados pelos contrários. Anaximandro não se encontra fora dos ditames da reta a razão, oferecendo uma explicação pautada por meio de causas naturais para um determinado fenômeno que é tido por ele como natural, não ultrapassando os limites dados empíricos e racionais.

Temos, por sua vez, outro sucessor de Tales e discípulo de Anaximandro: Anaxímenes de Mileto. Seu principal feito foi tomar a realidade no universo é dinâmica, as coisas nascem, mudam e desaparecem neste espaço que é determinado pelo movimento eterno do próprio princípio originário. Seu pensamento elege como princípio primeiro de todas as coisas o ar, partindo da observação que qualquer ser dele necessita. O movimento de respiração mantém um ser vivo, e este, em um eterno movimento inspira e expira. Nesse ritmo, caso não proceder assim o indivíduo morre. É sob este ângulo que o ar é o elemento essencial e indispensável à vida de todo o animal.

    “Por sua própria natureza o Ar é dotado de perene movimento. Esse movimento eterno é responsável pela derivação o surgimento de tudo. Todas as coisas vêm do ar e a ele retornam em virtude de dois processos naturais: a rarefação (dilatação) e a condensação (contração). Pela rarefação (movimento para cima) o Ar transforma-se em Fogo (fogo é Ar rarefeito). Pela condensação progressiva (movimento para baixo) o Ar, tornando-se cada vez mais denso, converte-se em vento, nuvens e depois água Se o processo de condensação continua aparassem a terra e, finalmente, as pedras” (SANTOS, 2001 p. 40).

Vamos um pouco alem, na cidade de Eléia. Temos Parmênides que além de fazer pautas in de indagações sobre a filosofia mescla este com variações proféticas, místicas como uma postura extremamente racionalista. Sua grande revolução foi a passagem da cosmologia a ontologia, traçando o eixo da investigação filosófica na especulação metafísica, onde Platão e Aristóteles deram continuidade.

    “Parmênides não faz concessões: uma coisa existe ou não existe. Se já existe, não pode vir a existir Não teria sentido. Se não existe, também não pode vir a existir, visto que, do nada (do não ser, do não-existir), nada pode provir.” (SANTOS, 2001 p. 63).

Nos termos acima mencionados, uma mesma coisa não pode ser e deixar de ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. A verdade que buscava seria somente alcançada pela razão. Este seria o Ser, e o oposto, o vir-a-ser, seria constatado pela experiência sensorial e não apenas em aparências. E a única coisa em que se pode pensar é o ser, portanto, o nada não pode ser pensado. Chega à conclusão de que o ser é o objeto racional de pesquisa sobre o pensamento da natureza (physis). Este é o primeiro princípio que faz deste a multiplicidade a essência e propriedade do ser – como substância única e o fundamento de tudo.

Outro cidadão da Eléia que pesquisou acerca da origem do Ser foi Zenão, responsável pelo acirramento das controvérsias entre os pensadores que tinham o objeto inicial como estático e aqueles que traziam no bojo de sua doutrina o constante movimento. Citado por Aristóteles como um dos fundadores da dialética, entre seus argumentos mais importantes estava a possibilidade de multiplicidade e do movimento – que era vigorosamente combatido pelo eleatismo, que tinham como máxima “tudo permanece imóvel e nada, absolutamente, se move”

Acerca do constante movimento, podemos citar neste mesmo período de descobertas Heráclito da cidade portuária de Éfeso, com sua metáfora conhecida: “um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. O rio aparentemente é sempre o mesmo. Mas por detrás desta devemos considerar as suas águas correntes, que sempre estão em movimento, em um eterno processo. Assim, o conteúdo do rio é renovado incessantemente, novo a cada instante. Através dessa premissa ele desenvolve seu pensamento. Assim sendo, a única coisa que permanece inalterável é a própria mudança, o movimento. É definida a realidade como um constante processo.

Heráclito também elege um princípio fundamental (arché). A existência do princípio Logos como unidade múltipla – céu e terra, guerra e paz, medo e coragem, etc. – é imaginado este como um círculo onde o começo sempre coincidirá com o fim, o caminho sempre terá uma direção definida. A metáfora do Rio que tratamos de explicar acima é substituída pelo fogo, é o que melhor se presta a cumprir seu destino como elemento de transformação. Este é uma manifestação empírica do Logos.

Sua filosofia prima por uma harmonia, onde podemos observar o dualismo gerando uma síntese dos opostos.

Poderíamos ir além, trazendo para este texto tantos outros filósofos helênicos que viveram antes de Sócrates. Apesar de todos estarem contribuindo para a formação do raciocínio expresso em Nietzsche,...xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

O Anticristo

O autor da obra assumiu corajosamente o risco de pensar novos valores que haviam sido relativizados, não estando mais aptos a responder a nossa eterna pergunta acerca da existência, seu sentido. Conceitos de bem e mal, virtude, justiça, falsidade e tantos outros foram modificados com a ascendência do cristianismo, por essa razão, trouxe neste texto a severa e incômoda crítica dos valores mistificada pela doutrina cristã.

Talvez pelo título da obra foi alvo de muitas críticas (considerando a data de sua edição – 1894, apesar de ser escrito em 1888 – até os dias atuais). A intenção ao criar a obra era o de abrir caminho para uma crítica dos valores estabelecidos em quase dois mil anos de cristianismo, propor a inversão e criar novos valores. Propunha um combate ao idealismo da metafísica platônica que transformou este mundo em algo inferior e ilusório baseado na “verdade” de um mundo ideal, dirigindo seu esforço para inverter essa situação e para poder considerar a proposição dos novos valores. Assim, dentre seus escritos, cita: “o cristianismo é um platonismo para o povo”. Esta é a temática que deseja combater em sua obra O Anticristo. Sua luta baseia-se no ataque à metafísica, contra o dualismo proporcionado pelo corpo e alma, aqui e o além, terra e céu, assim conseqüentemente por diante.

Dentro de seu repertório, fica difícil lembrar o nome Nietzsche sem vincular a sua frase lapidar: “Deus está morto”. A título ilustrativo, um graffiti apresentado nos anos setenta que ficou muito conhecido e até hoje citado, com ar pejorativo em relação ao filósofo. ”Deus está morto”, assinado Nietzsche. “Nietzsche está morto”, assinado Deus. É interessante notar que este escrito jocoso tentou desviar o verdadeiro pensamento e desvirtuar o sentido imposto. Mas aquilo que Nietzsche escreveu, sem sombra de dúvida, foi obra de um ser que realmente existiu. O graffiti não foi obra de Deus, consolidando e mostrando ironicamente que este não existe. Podemos citar sua vontade de potência, sempre se mostrando como um vir-a-ser, um eterno retorno, presente tanto no filósofo quanto no autor daquele escrito.

Sua doutrina cética sobre o olhar cristão elide o conceito de dogma como “muleta existencial”, definido por seu conterrâneo como “o ópio do povo” (Karl Marx). Sua proposta é a supressão da moral, com isto seria o fim da primazia da moral (cristã) sobre a existência, uma fuga para longe do dualismo corpo e alma do platonismo. Para tanto, a ferramenta é o niilismo (a ausência de sentido) que a partir da própria vida como referencia (em si e por si, como diria Hegel) desvincularia aquele sentimento de culpa impulso pela moral cristã. Seria novos valores de uma nova cultura.

Há pouco falamos de dualismo, remetendo a Platão. Em Nietzsche não há dois planos: metafísico-religioso nem ciência enquanto religião, aliás, nem fé nem razão. Tudo é reduzido a apenas um fluxo de forças e a razão é um acaso, assim como todo conseqüente.

Vistos sua teoria de que as coisas retornam eternamente, a quantidade de movimentos é infinita e a quantidade de forças é finita – onde há uma criação e destruição permanente – leva-se a conclusão é que se necessita a criação de um novo tipo humano: o “além do homem”. Este novo biotipo seria então capaz de viver nesse mundo com suas limitações e elaborando sua superação constante.

Nietzsche criou a “filosofia do martelo” propondo com isto a derrubada de ídolos. O seu Anticristo vem justamente para indicar novos valores ao mundo, onde não é necessário um deus que o crie, modifique ou mesmo faça extinguir novos valores.

Sendo citado pela doutrina como sendo a primeira obra de Nietzsche a questionar os valores postos e propor concomitantemente a “transmutação de todos os valores”, o alvo destes esforços é (como dito anteriormente) a moral e todos os valores impostos pelo cristianismo, sendo esta a responsável pela corrupção dos instintos humanos, o desvirtuamento da alma na forma de religião que vai de encontro à natureza.

A critica do anticristo não é dirigida à sua pessoa, pelo contrário, é contra o dogma formado (baseado no preceito contido) de seus atos, que posteriormente foi posto ao público pelo profeta Paulo. Aprofundando especificamente este tema, se faz necessário expor brevemente a realidade segundo Nietzsche. Este acreditava que Jesus Cristo era apenas uma pessoa inocente, seu gesto digno, nobre e portanto até certo ponto feito sem interesse alheio (de boa fé). Intenção dele era digna, como referencial para o apóstolo Paulo que em nome dele ditou, organizou e impôs seu ideal sobre a igreja. Ele manipulou muito bem (agora Paulo) a ponto de tornar a religião uma pátria do ressentimento, onde os valores morais são distorcidos a tal instante de ser instalada uma ordem do eterno temor.

A luta da alma contra o corpo – este dualismo platônico – era efetivado nas pregações de Paulo. O além contra o aquém vinha como a “sabedoria evangélica”. A vida de amor que Cristo teve em sua existência acabou em uma doutrina de ódio e piedade, uma idéia de juízo final. Também podemos dizer que foi o primeiro teólogo a inverter os valores ordinários da existência, e Nietzsche faz disso um motivo para a necessidade de identificar tal mudança e conjuntamente propor uma adequação dos mesmos.

Sentimento de Inferioridade

A raça humana que não tem os traços impostos pelos valores cristãos seria privilegiada – a designação para este tipo era dado por Nietzsche como o “homem superior” – e o alvo da contaminação pelos preceitos brotados da ética vulnerável proporcionada:

    “Não se deve embelezar nem desculpar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este tipo de homem superior, renegou todos os instintos fundamentais deste tipo e desses instintos destilou o mal, o negativo – o homem forte como tipo censurável, como proscrito. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, e transformou em um ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável; e até corrompeu a faculdade daquelas naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores do intelecto não passam de pecados, desvios e tentações”(NIETZSCHE, 2002 p.40).

O conceito do homem como animal político (na matriz aristotélica) é considerado como sendo “o animal corrupto”, pois quando o homem despreza seus próprios sentimentos naturais, sua opção será ao que lhe é prejudicial. “Uma análise a respeito dos “sentimentos elevados”, dos “ideais da humanidade” – pode ser que ainda venha a escreve-la – quase esclareceria por que o homem é tão degenerado. A própria vida apresenta um instinto para o crescimento, para o poder; sem isso, ocorre o desastre”(NIETZSCHE, 2002 p.40). Fica claro que toda a humanidade aprendeu a ter a piedade como uma virtude, aquilo que no sistema moral adotado pelos seres superiores é tomado como uma fraqueza, algo falho.

A religião aparece e seu cinismo vêm como sendo a “religião da piedade” . A etimologia do termo (re-ligare) se fosse seguida certamente não teríamos a depreciação do nobre sentimento humano dando lugar à fraqueza, essa que “dissemina todo sofrimento”. Um fruto gerado vem como opositor a tudo o que é natural, e também com relação aos valores cultivados no anterior da convivência humana. Esse aspecto apresenta-se como algo contrário à vida, um “estado mórbido e perigoso” que deve ser extirpado para não macular nossos sentimentos e atos derivados destes.

A crítica inserida no Anticristo além de trazer à tona a moral e os valores corrompidos, destina também seus esforços para evidenciar os meios responsáveis pela inversão. Quem são nossos “antagonistas”? Com a mesma severidade apresentada desde o início até o fim da obra, o filósofo aponta firmemente: os teólogos e os idealistas. Contra a criação destes:

    “É contra esse instinto teológico que movo guerra: por toda parte encontrei vestígios dele! Todo aquele em cujas vias corre sangue de teólogo fica desde logo numa posição falsa perante tudo e todos, numa posição que carece de dignidade. Ao pathos que dele emana dá-se o nome de fé: fechar os olhos perante si mesmo, definitivamente, a fim de evitar o sofrimento que o aspecto de uma falsidade incurável provoca. Daquela óptica falseada, a tudo aplicada, extrai-se intimamente uma moral, uma virtude, uma santidade,  transformando-se uma má visão na condição necessária para uma boa consciência – e após esta ter se tornado sacrosanta, sob o nome de “Deus da Salvação”, de eternidade, já não se aceita que uma outra óptica possa ter valor”(NIETZSCHE, 2002 p.43).

Personificando seus desafetos, objetivou o teólogo Lutero e o filósofo Kant (este como representante do idealismo alemão). No tocante ao protestantismo, foi classificado como uma cópia do conceito cristão-católico – pejorativamente uma hemiplegia, termo clínico este que designa a paralisia de metade de um corpo –; a Kant, por sua vez, foi fadado  a absorver os duros golpes do martelo filosófico de Nietzsche: “É precisamente o inverso que ordenam as mais profundas leis da conservação e do crescimento; que cada um crie sua própria virtude, o seu imperativo categórico”(NIETZSCHE, 2002 p.45).

Sobre Kant a maior falta seria a instituição da máxima como ordenamento moral, sobrepondo o particular sobre a geral. “O povo corre para a própria ruína quando confunde o seu dever com a idéia geral do Dever.”

Acerca da Necessidade da Religião

Questionando acerca da instituição – que até certo ponto devemos considerar sua evolução histórica, uma vez que o seu surgimento se funde a da civilização – espiritual que é a religião, sua consideração sobre então a necessidade como objeto (etapa), de um povo intransponível é categórica. Um povo orgulhoso precisa de um deus para lhe oferecer ofertarem sacrifícios, mostrando seu poder. “A religião é, nestas condições, uma forma de agradecimento. E um agradecimento a si mesmo: para isso se precisa de um Deus” (NIETZSCHE, 2002 p.49).

A contrario censu, o repertório do cristianismo sobre o tema prossegue até o mesmo ritmo, mas de maneira inversa: o cristão não mostra sua força, apenas suas fraquezas. A inversão deste caminho salienta a necessidade de uma “transmutação de todos os valores”.

Genealogia da Moral

A obra que dedicamos este capítulo com seu nome, aprofunda e consolida a crítica da moral levada a efeito nos escritos anteriores de Nietzsche, obras que por nossa proposta não foram abordados. Aqui ele se convence de possuir maior maturidade para os problemas formulados em suas obras editadas anteriormente, acredita ter fornecido agora ao método genealógico uma dimensão especial. O método aqui discutido diz respeito a uma abordagem histórica dos sentimentos e costumes morais. A tarefa preparatória da gênese histórica é uma questão mais incisiva, de certo modo mais profunda. É a pergunta pelo próprio valor dos valores, e a avaliação da ação tradicional.

O livro é dividido em três dissertações, cada qual com uma proposta particular. Podemos considerar que a gênese da moral ocidental era abordada de perspectivas distintas. Na primeira parte, Nietzsche traz importantes conquistas teóricas que posteriormente serão abordadas por Freud, especialmente quando discrimina a genealogia da consciência moral. A segunda parte é abordado a cultura superior, com as figuras de moralidade características, considerados como um processo de internalização e espiritualização da crueldade.

Também esta obra traz importantes conceitos para seus escritos de 1888, dentre eles o anticristo. Estes desempenham função basilar em sua leitura sobre valores morais. Dizem respeito acerca do niilismo e da decadência.

Niilismo (niil = nada) é entendido como um sentimento difuso e opressivo, gerado no bojo de uma cultura, quando o acaso é levado ao extremo. Seria então a expressão intelectual e a afetiva da decadência. O homem moderno através desta vivencia a fuga dos valores superiores de sua cultura. Presenciamos o sentimento da sociedade perante o sistema tradicional de valoração, que compreende o plano religioso, político – no que tange os padrões éticos. Tudo se encontra sem consciência não podendo mais serem fundamentadoras para o conhecimento e a ação.

O desejo de rebaixamento e a nivelação do ser são tornadas expressões ideológicas de abrangência total, incidindo sobre a massa social, ciência e filosofia.

Decadência consiste em um processo não permanente, onde trás como linha-mestra a oposição a qualquer expressão que constitua uma contra-idéia. Manifesta-se com a falta de união (orgânica), a destruição de funções e elementos, agindo contra o princípio de vida – de um determinado povo ou cultura. A sociedade moderna é dilacerada por este e sofre profunda fragmentação que a torna incapaz de se integrar em um padrão ético comum.

O binômio decadência/niilismo é a proposta de Nietzsche para diagnosticar a condição precária do mundo moderno e externar sua crítica sobre a modernidade política. A nível histórico, são os movimentos sociais que marcaram aquele presente, o presente que é vivido por ele. Lições como socialismo, manifestações anarquistas são somente uma continuação do processo decadente de instituições e valores originados na Revolução Francesa. Sua imediata visão era a banalização da existência pela medíocridade da humanidade, que propõe sempre uma nova idéia e é incapaz de efetivamente revolucionar o pensamento presente de modo consistente.

Um amplo horizonte de significação para a política é dada, com a tarefa de criar condições propícias ao surgimento de novos pensadores que tenha suficiente competência em moldar a figura humana do futuro. Os novos políticos aqui propostos superariam os limites do homem moderno e criariam novos valores, rompendo com a moralidade tradicional. Como “legisladores” teriam também a responsabilidade pela unidade cultural, seriam opositores à mediocridade dos nacionalismos políticos, econômicos ou bélicos.

Conclusão

A moral do ressentimento e da culpa ainda muito pesam na sociedade, e está presente ainda com muita força no mundo cristão. E ainda há muitos que em nome de Cristo seguem como seu rebanho em nome de uma promessa de vida no além. Todos os esforços de Nietzsche são dirigidos como uma imensa batalha contra o dualismo platônico, que ganhou dimensões gigantescas e foi consolidada como um hábito no cristianismo.

Podemos comparar estes valores como uma ferida, um tumor que Nietzsche se esforçava em tentar curar, mostrando os males que contaminam a vida com sua enfermidade metafísica. Podemos seguramente afirmar, que o desespero, a senilidade e a ansiedade por um além deturpam qualquer moral, desde o mais nobre até os mais simples deles.

Friedrich Nietzsche é um pensador que captou filosoficamente a experiência intelectual da vida, e tratou levar nosso destino até o extremo, por via de um impulso crítico que permeou o pensamento filosófico da modernidade. Não há como o extrairmos as últimas conclusões da crítica por ele imposta sem necessariamente retornar às suas origens, a metafísica platônica. Uma das mais fundamentais e singelas tarefas propostas por Nietzsche era refutar e destruir a metafísica concebida por Platão.

Referências Bibliográficas:

NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2002.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Centauro, 2004.

SANTOS, Mario José dos. Os Pré Socráticos. Juiz de Fora: UFJF, 2001.

(*) Fabio Brych - E-mail: fabiobrych@bol.com.br